Tecido da Realidade
Atualizado: 15 de ago.

E até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles. Mas, quando se converterem ao Senhor, então o véu se tirará. - 2 Coríntios 3:15,16
Há uma sensação que você só reconhece depois de senti-la algumas vezes. Não é medo, é mais parecido com a pressão no ar segundos antes de uma tempestade, aquele instante em que os pelos do braço se arrepiam sem motivo aparente. Aquele momento peculiar em que seus sentidos dizem que algo não está certo. Já senti isso num quarto de hospital numa madrugada fria em São Paulo. Num cemitério pequeno na cidade do interior do MS e senti também, de um jeito mais intenso do que eu gostaria de admitir, dentro da sala de estar de uma família que só queria uma resposta para algo que vinha acontecendo havia meses. É a sensação de que algo fino simplesmente cedeu o suficiente pra que, por um instante, você perceba que não está sozinho naquele ambiente. Quem passa tempo suficiente em trabalho de campo aprende a nomear essa sensação atmosférica: o Véu está menos denso. Levei anos catalogando essa percepção com vocabulário emprestado de dezena de tradições diferentes: véu, membrana, tecido, hijab.. Sempre convencido de que estava me aproximando de uma verdade universal - “a verdade por detrás da verdade”. E há, de fato, algo universal. O erro nunca foi notar o padrão de oscilação destes lugares mas sim nunca se perguntar por que este padrão existe e se repete. Nesse texto quero fazer este mesmo percurso tradição por tradição, porque cada uma delas guarda uma peça genuína do quebra-cabeça que molda o conceito do Tecido da Realidade. A Membrana Psiquica As tradições esotéricas ocidentais com que mais trabalhei definem o Tecido da Realidade como uma membrana psíquica que separa o Mundo Físico do Mundo Espiritual. Supostamente criada pela psique humana na eterna labuta de explicar de modo logico e tangível os fenômenos de natureza extrafísica ou espiritual. Essa força motora gerada pela própria mente coletiva da humanidade tece essa membrana que separa o físico e tangível do espiritual intangível, criando assim uma barreira, semelhante a uma cortina, que veda os olhos e a percepção extra sensorial da maior parte da humanidade. E aqui cabe um parêntese que costumo fazer com meus alunos: dizer que essa membrana é "psíquica" não é o mesmo que dizer que é imaginária. Quem já esteve em campo por tempo suficiente sabe que a consciência molda a realidade. O complicado mesmo é explicar de onde, exatamente, essa realidade nasceu. A tradição costuma apontar para um momento simbólico de origem, representado pela figura de Adão: antes do fruto, não havia véu a atravessar; o Éden é descrito não como um lugar mágico separado do mundo material, mas como o próprio mundo material visto sem filtro, sem fronteira entre "natural" e o "sobrenatural". No ato de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, é visto em muitos sistemas, como o primeiro grande gesto de discernimento binário da humanidade, e a semente psicológica de tudo o que viria a se tornar o próprio Tecido da realidade foi plantada.

É uma leitura inteligente de certa forma, só que ela erra exatamente no ponto que deveria ser o mais fácil de acertar: o texto de Gênesis não termina no fruto. Ele termina numa cena que a maior parte da literatura ocultista simplesmente pula: "E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada flamejante que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida" (Gênesis 3:24). Não é a consciência humana "tecendo" uma membrana coletiva por hábito de categorizar o mundo que considera “Real”, mas sim Deus colocando, com as suas próprias mãos, uma guarda real e específica, querubins e uma espada de fogo, sobre um acesso que a própria humanidade tinha, de fato, perdido. E desta forma vem se propagando até hoje, nos diversos níveis da realidade. O véu nasce, sim, no Éden. Mas nasce como vontade divina, porque uma barreira que impede o acesso à árvore da vida, para um ser humano já em processo de corrupção, nasce não somente em ambiente físico, mas também psíquico e espiritual, e isso veremos mais a seguir em detalhes. Portanto, guarde essa imagem dos querubins, porque ela vai voltar mais adiante, num lugar que a maioria dos textos sobre o Tecido nunca menciona. Deste modo, é verdade que a maneira de como cada geração se posiciona diante do invisível; com fé ou com ceticismo, com reverência ou com controle, muda a espessura percebida dessa fronteira-Véu. E isso é observação de campo, não teologia dogmática. O erro está sempre em confundir o que é mera percepção extra sensorial com a questão que realmente nos importa: se a travessia deste véu entre mundos é possível ou não, independente de quanto se acredita ou deixa de acreditar neste véu. O Véu de Maya Na filosofia hindu, especialmente na escola do Advaita Vedanta, encontramos um conceito semelhante: o Véu de Maya (māyā), a ilusão cósmica que separa o real intangível do passageiro tangível. Maya não é simples imaginação, é o próprio poder pelo qual o Absoluto (Brahman) aparece como um universo de formas múltiplas, ocultando a não-dualidade (advaita) por trás da aparência de separação. Shankara (788–820 EC) resumiu essa confusão com a célebre imagem da corda confundida com uma cobra no escuro: você vê uma cobra, sente medo real, seu corpo reage de verdade, mas o que está diante de você, na verdade, é só uma corda.
Diferente da leitura ocidental que acabamos de discutir, Maya não nasce de um evento ou da mente coletiva. Não existe um "Adão hindu" cuja escolha inaugura o véu de separação entre os mundos. É, na verdade, uma potência intrínseca do próprio Absoluto, que existiria de qualquer forma. E ainda assim, repare no ponto de convergência: tanto no Ocidente quanto na Índia, essa membrana entre o absoluto e o relativo (ou físico e espiritual) carrega uma qualidade psíquica, perceptiva, algo relacionado à consciência, não apenas à matéria. Duas civilizações que nunca se falaram, chegando à mesma intuição por caminhos diferentes: A separação do mundo material e do mundo imaterial, ocorre em primordial, na mente humana.

Os setenta mil véus do Sufismo Vale abrir espaço para uma terceira tradição, menos citada em textos ocidentais sobre o tema, mas igualmente rica: o misticismo islâmico, o Sufismo. Numa tradição de hadith bastante difundida entre os místicos, fala-se de setenta mil véus de luz e de trevas separando o buscador do rosto de Allah — véus que precisariam ser erguidos, um a um, ao longo do caminho iniciático (o tariqa). Cada véu removido revelaria mais realidade, mas também consumiria o próprio buscador um pouco mais, até restar dele o mínimo necessário para suportar a proximidade do Divino.
O termo árabe para véu, hijab, carrega justamente esse duplo sentido de ocultação; o véu esconde e também protege quem está do lado de cá de um contato que, sem preparo, seria destrutivo. É uma ideia que qualquer pessoa que já tenha conduzido uma operação de contato direto reconhece na prática: o véu é necessário. Às vezes é a única coisa mantendo alguém inteiro. E é o que quase ninguém no ocultismo ocidental nota a respeito do véu: que essa mesma dupla função, ocultar e proteger, é exatamente o que os querubins em Gênesis já faziam, muito antes de qualquer tradição: a barreira que impede o acesso é a mesma barreira que impede a ruína. De modo que sem o tecido da realidade que separa nossos mundos, o próprio mundo físico em si não poderia existir, ou estaria com sua segurança e integridade altamente expostos.
O véu do templo: Nas tradições abraâmicas, encontramos uma metáfora física para esse mesmo conceito: o Véu do Templo (parokhet). No Templo de Jerusalém, uma cortina elaborada separava o Lugar Santo do Santo dos Santos, o recinto mais sagrado de todos, onde se acreditava residir a própria Presença Divina, a Shekhinah. Apenas o Sumo Sacerdote podia atravessá-lo, e somente uma vez por ano, no Yom Kippur, depois de um ritual de purificação tão rigoroso que um erro poderia custar-lhe a vida.
Aqui está o detalhe que a maior parte da literatura ocultista — inclusive a que eu mesmo escrevi, anos atrás, simplesmente deixa passar: o mandamento original para esse véu, dado a Moisés, não descreve o seguinte: "E farás um véu de azul, e púrpura, e carmesim, e linho fino torcido; com querubins o farás, de obra esmerada" (Êxodo 26:31). Querubins. Os mesmos seres colocados por Deus à entrada do Éden depois da queda de Adão para proteger o acesso ao espiritual sem medidas, foi representado, séculos depois, na própria cortina que guardava a Presença de Deus dentro do Tabernáculo e, mais tarde, do Templo. Não é coincidência. É a mesma analogia, repetida: o acesso ao que é de todo espiritual permanece protegido pela mesma coisa que barrou a árvore da vida, até que alguém com autoridade para isso decidiu removê-la.

Os evangelhos registram que, no exato momento da morte de Jesus na cruz, "o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo" (Mateus 27:51). De alto a baixo, não de baixo para cima, como faria um ser humano tentando forçar passagem, mas sim um meio, um “Caminho” de acesso ao espirito, criado pela única autoridade que, desde o início, já tinha o direito de reabrir o caminho. A carta aos Hebreus explica da seguinte forma: "temos, pois, irmãos, ousadia para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, caminho novo e vivo que ele nos consagrou, através do véu, pela sua carne" (Hebreus 10:19-20).
O que o texto de Hebreus diz é: há um acesso aberto neste véu, feito de dentro para fora, por iniciativa de quem estava do lado de dentro, e através deste caminho, temos acesso ilimitado ao que é espiritualmente verdadeiro e podemos transpassar este véu, criado pelo absoluto e alimentado pela psique humana, e assim vislumbrar de uma vez por todas essa realidade espiritual de modo real, verdadeiro e profundo
'Nele temos ousadia e acesso com confiança' (Efésios 3:12)



